Macroeconomia

Por que o IPCA sobe mesmo quando a Selic está alta?

Entenda a defasagem entre política monetária e inflação ao consumidor no Brasil.

Close de pessoa analisando gráficos de inflação em uma tela de notebook

Quando o Banco Central eleva a taxa Selic, o objetivo é encarecer o crédito e reduzir o consumo — o que, em teoria, derruba a inflação. Só que esse processo não é instantâneo. Economistas chamam de “defasagem de política monetária” o intervalo entre a decisão do Copom e o efeito sentido no IPCA. Nos últimos ciclos de aperto monetário no Brasil, esse intervalo ficou entre seis e dezoito meses. Isso significa que, mesmo com a Selic em dois dígitos, os preços no supermercado e nos serviços podem continuar subindo por um bom tempo depois da alta dos juros. Existem razões estruturais para isso. Parte significativa do IPCA é composta por itens administrados — energia elétrica, gás de botijão, tarifas de ônibus — cujos reajustes seguem contratos regulatórios, não a demanda de mercado. Esses preços sobem independentemente do que o Banco Central decide. Outro fator é a inércia inflacionária: contratos de aluguel, planos de saúde e acordos salariais são reajustados com base na inflação passada, o que embute a alta de um período no período seguinte. Por fim, choques de oferta — como uma seca que reduz a geração hidrelétrica ou uma quebra de safra — pressionam preços de forma que a política monetária simplesmente não consegue resolver no curto prazo. Entender essa defasagem ajuda a interpretar os comunicados do Banco Central com mais precisão: quando o Copom diz que a política monetária está “contracionista”, ele está apostando num efeito futuro, não descrevendo o presente.