Mercado de trabalho
Desemprego caiu, mas a renda real também: o que está acontecendo?
Os dados do Caged e da PNAD revelam um paradoxo no mercado de trabalho que precisa de contexto.
O Brasil fechou 2024 com a menor taxa de desemprego da série histórica da PNAD Contínua, abaixo de 6,5%. Isso seria motivo de comemoração se não viesse acompanhado de outro dado: a renda média real do trabalhador cresceu abaixo da inflação pelo segundo trimestre consecutivo. Como é possível ter mais gente empregada e, ao mesmo tempo, menos poder de compra? A resposta está na composição do emprego gerado. O Caged, que mede as admissões com carteira assinada no setor formal, mostrou crescimento expressivo em setores de baixa remuneração: serviços domésticos, alimentação fora do lar e comércio varejista. Empregos de salário mínimo ou pouco acima dele respondem pela maior parte das vagas abertas. Ao mesmo tempo, postos de trabalho de renda intermediária — manufatura, telecomunicações, serviços financeiros de base — continuaram em contração ou estagnação. O resultado é uma média puxada para baixo: mais trabalhadores no denominador, renda total que não cresce na mesma proporção. Há ainda o fator informalidade. Uma parcela dos que saíram da estatística de desemprego migrou para o trabalho por aplicativo ou conta própria sem registro. Esses vínculos não aparecem no Caged e entram na PNAD com rendimentos variáveis e sem acesso a FGTS ou seguro-desemprego. Isso não significa que a queda do desemprego seja irrelevante — emprego, mesmo de baixa renda, representa dignidade e renda para famílias reais. Mas ler apenas a manchete da taxa de desocupação sem olhar a qualidade do emprego gerado é ver metade da fotografia.